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Uma velha coleção de borboletas do Museu
Nacional, no Rio de Janeiro, intrigava os
observadores havia décadas. Reunida por
naturalistas que viajaram pela região do Rio
Juruá, no Acre, no início do século XX, chamava
a atenção pela variedade e por incluir insetos
que existiam em vários pontos da Amazônia.
Muitos especialistas até duvidaram de sua
legitimidade. Um estudo recém-concluído por
pesquisadores de cinco universidades brasileiras
acaba de provar que não há nada de errado com a
coleção de borboletas. Ela não só é autêntica
como reflete apenas uma ínfima parte da
opulência natural que cerca esse trecho do
Juruá. O levantamento, que será publicado no
segundo semestre na forma de uma enciclopédia
natural, mostra que lá está a região de maior
biodiversidade da Amazônia, provavelmente do
planeta. Ou seja, lá está a maior concentração
de espécies numa mesma área. Ela supera com
folga outras regiões de Floresta Amazônica, como
Cacaulândia, em Rondônia, Pakitza e Tambopata,
no Peru, tidas até agora como campeãs em
variedades de seres vivos na Amazônia, que é,
por sua vez, a maior extensão de mata para a
sobrevivência de espécies animais e vegetais do
planeta. No Juruá, foram contadas 616 espécies
de aves, pelo menos seis delas raras e outras
duas completamente novas para a ciência. Nas
outras áreas são pouco mais de 550. Em se
tratando de borboletas, os cientistas já
registraram 1.620 tipos, mas há indícios de que
o número poderá chegar a 2.000. Há ainda
cinqüenta espécies de répteis, 300 de aranhas,
140 de sapos e 64 variedades de abelhas.
A explicação dos pesquisadores para tamanho
volume de vida é surpreendente. Ao contrário das
demais regiões estudadas na Amazônia, todas elas
paraísos intocados com acesso restrito, os
arredores do alto curso do Rio Juruá são
habitados. Ocupada desde o século XIX por
caboclos que vivem dos seringais, a região tem
aproximadamente 8.000 moradores isolados em
pequenos vilarejos no meio da mata. Esse seria
um dos motivos de tamanha variedade. Os
cientistas acreditam que reviravoltas ambientais
e climáticas são fatores determinantes para a
riqueza biológica. Isso porque elas rompem a
hegemonia de espécies mais fortes, dando espaço
para que outras formas de vida prosperem. No
Alto Juruá, as pequenas alterações na natureza
causadas pelo homem também fazem o papel de
pequenas catástrofes naturais. “A presença
humana no Alto Juruá acaba tendo um efeito
parecido com o de enchentes e tempestades”, diz
a antropóloga Manuela Carneiro da Cunha,
professora da Universidade de Chicago e uma das
coordenadoras do inventário da região.
O efeito dos roçados e caminhos abertos nos
seringais é similar ao da morte sazonal de
bambuzais ou da devastação provocada por grandes
tempestades, fenômenos que abrem clareiras nas
matas e criam novos refúgios para a vida.
Acredita-se que os povos indígenas tenham
desencadeado o mesmo fenômeno em outras partes
da Amazônia antes da chegada dos portugueses.
“As antigas populações devem ter alterado pelo
menos 10% da composição atual da mata”, avalia o
pesquisador William Balée, da Universidade
Tulane, em Nova Orleans, nos Estados Unidos,
cujo objeto de estudo é o impacto da ocupação
humana na natureza. É óbvio que se está falando
de áreas com baixos níveis de concentração
populacional. Quando ela é grande, a presença do
homem é sempre um desastre para a
biodiversidade. Estima-se que o crescimento
desenfreado da ocupação humana tenha provocado a
extinção de até 20% de alguns grupos de animais.
A paisagem atípica da região do Alto Juruá
também conta na hora de separá-la do que
normalmente se conhece como Amazônia.
Cachoeiras, capoeiras e montanhas de 600 metros
de altitude espalham-se por um território que
equivale a nove vezes o tamanho da cidade de São
Paulo, localizado junto à Serra do Divisor,
próximo às franjas da Cordilheira dos Andes, na
fronteira com o Peru. O clima é mais úmido e
mais frio do que na maior parte da floresta
brasileira. Em junho e julho, a temperatura
chega a apenas 7 graus. Um assombro em se
tratando de uma região que fica a apenas 1.000
quilômetros da linha do Equador. No Rio Moa, um
afluente do Juruá, há cenários espetaculares,
como escarpas que formam cânions com paredões de
150 metros. No fundo desses vales surgem
bromélias e orquídeas em número nunca visto no
restante da Amazônia brasileira. Para completar,
nas regiões mais altas existem florestas anãs,
com mata baixa, nas quais o chão chega a ter
camadas de 50 centímetros de raízes finas e
musgo. Além de animais considerandos vulneráveis
ou ameaçados de extinção, como a preguiça-real,
o tamanduá-bandeira, a lontra e o tatu-canastra,
há por lá peculiaridades como uma mariposa de 30
centímetros, considerada a maior do mundo, e um
morcego com envergadura de 1 metro, o maior das
Américas. Os especialistas acreditam que existia
ali muito que descobrir. “Nosso conhecimento da
floresta ainda é bastante precário”, avalia
Peter Toledo, diretor do Museu Paraense Emílio
Goeldi, em Belém.
O estudo da biodiversidade na Amazônia ainda
engatinha. Mesmo no caso das aves, os animais
mais estudados, só se conhecem bem aquelas que
vivem nas áreas em que existem postos de
observação, o que corresponde a apenas 20% do
território da floresta. A ignorância aumenta
conforme o tamanho dos bichos diminui. O
Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa)
conta com um acervo de 5 milhões de amostras de
formigas. Desse total apenas 500 foram
estudadas. Quando o assunto são os
microrganismos, a obscuridade é maior. E não se
trata de pouco-caso dos cientistas – mas das
dificuldades inerentes à impressionante
diversidade de seres vivos. Nunca se descobriram
tantas espécies como atualmente. No ano passado,
em todo o mundo, foram catalogadas 8.000
espécies que eram completamente desconhecidas. É
um volume tal que num único dia chega-se a
registrar 300 tipos de plantas, animais e
microrganismos. Um novo mamífero é encontrado a
cada três anos. É uma atividade febril que
lembra a dos exploradores dos séculos XVIII e
XIX, quando a maior parte do mundo animal ainda
estava por ser descoberta. A área de estudo
também tem aumentado nos últimos anos, pois os
limites da biosfera, a faixa do globo onde se
considera possível a existência de vida, estão
sendo reavaliados e ampliados. Pesquisas
recentes detectaram comunidades de micróbios em
rochas enterradas a 2.000 metros de
profundidade. Calcula-se que existam no planeta
entre 10 milhões e 30 milhões de espécies de
seres vivos, das quais conhecemos apenas 1,75
milhão. Mesmo descobrindo pequenos édens
ecológicos como a região do Alto Juruá, a
empreitada que biólogos e zoólogos têm pela
frente continua gigantesca. |